VING TSUN: UMA ARTE MARCIAL FUNDADA POR UMA MULHER PDF Imprimir E-mail
Escrito por Washington Fonseca   
Qua, 22 de Julho de 2009 11:06

Quais seriam as qualidades que distinguem o Sistema Ving Tsun, uma arte marcial com características femininas, e qual a sua relevância para os dias de hoje? Para respondermos essa pergunta seria interessante, em primeiro lugar, entendermos o contexto histórico de sua fundação.

VIDA E OBRA
Yim Ving Tsun nasceu na província de Guangdong , China. Após ser prometida a casar-se com Leung Bok To, sua mãe falece. O seu pai Yim Yi foi erroneamente acusado de um crime, levando eles a se mudarem para a fronteira de Yunnam e Guangxi.

Em meados do século XVIII, o Monastério Budista Siu Lam foi destruído por um incêndio, cinco monges conseguiram escapar da tragédia, cada um deles abrigou-se em diferentes montanhas. Nesse grupo de sábios havia uma monja, o nome dela era Ng Mui.

A monja estabeleceu-se seu bordão no Monastério Taoísta Bak Hok da Montanha Miu. Por descer com uma certa frequencia à vila para comprar mantimentos acabou conhecendo a jovem Yim Ving Tsun que passava por dificuldades.

 Yim Ving Tsun havia sido prometida a casar-se com Leung Bok To, mas uma pessoa de má índole decidiu desposá-la a força. A pedido do seu pai a monja aceitou a jovem como discípula. Foi no Templo Pak Hok que Yim Ving Tsun aprendeu a inovadora Arte Marcial concebida pela monja, depois que esta presenciou o enfrentamento entre a serpente e o grou. Após derrotar o pretendente usurpador, casou-se com o Leung Bok To, aquem havia sido prometida. Com o passar dos anos, dedicou-se a sistematizar a arte recebida da Monja.

Oportunamente, a Yim Ving Tsun transmitiu secretamente esse conhecimento para seu marido, Leung Bok To. Depois do falecimento de Yim Yi, o casal mudou-se para Nanxiong. Lá ela adoeceu e desencarnou.

A FEMINILIZAÇÃO DA GUERRA
Quando se atribui que o Sistema Ving Tsun foi fundado por uma mulher, destacam-se as qualidades femininas empregadas em um conflito. E interessante destacar que a guerra, até então, foi palco da virilidade masculina. No século IV-III a.C., houve uma grande revolução na arte de pensar a guerra, época de grandes reformas na sociedade chinesa, ficou conhecido como o Período dos Estados Combatentes. Nesse período a China ficou em guerra por aproximadamente 400 anos, e foi justamente no meio da discórdia e violência que surgiu esse pensamento estratégico. E interessante notarmos que no meio desse caldeirão efervescente surgiram grandes pensadores como: Chuang-tse, Mengzi, Laozi, Xunzi, Sun Ji.

Foi justamente através da obra de Sun Ji conhecida hoje como A Arte da Guerra (Sun Ji Bing Faat) que a Feminilização da Guerra teve sua consagração, onde a eficácia da guerra é consagrada no campo do feminino ao contrário da força bruta.

A força bruta nada mais é do que fazer algo empregando mais energia do que o necessário para resolver uma determinada situação. Parte-se pra cima sem nenhuma avaliação do contexto presente, mais ou menos como se fosse um touro desgovernado, com muita energia, mas sem nenhuma estratégia.

Esse modelo da força bruta esta tão inserido em nossa sociedade que é copiado até pelas próprias mulheres, ao invés de utilizar-se das características femininas como: percepção, a moderação, a sustentabilidade da excelência, a antecipação, a intuição, a não-ação, a flexibilidade, a sutileza e a capacidade de lidar com a escassez de recursos, para citar alguns. Isso na maioria das vezes se dá, porque elas querem competir com os homens no mercado de trabalho, de modo geral estão deixando de usar suas características por considerá-la “frágil”.

E justamente nessa aparente “fragilidade” que os estrategistas se apóiam para tirar o recurso do outro. Esse recurso pode ser identificado pela força que o outro faz contra ou a favor, essa força pode ser uma palavra, um ato corporal, uma ideia, somente para citar alguns. Esse potencial está disponível o tempo todo. O fato de não ser visto, não significa que não existe. Para tal e necessário fazer uso da nossa percepção, ouvir o outro antes de tomar uma decisão e ser muito cuidadoso com a tão conhecida tomada de iniciativa como se diz no jargão popular. Um amigo me falou que solicitou uma consultoria de um profissional bem consolidado no mercado de trabalho e ficou perplexo como a falta de sutileza que a pessoa abordou a situação. Chegou vomitando informações com uma ansiedade absurda. Nem sequer ouviu o que ele realmente precisava. Se essa pessoa tivesse escutado melhor quais as necessidades do seu suposto cliente, teria gastado menos tempo, menos energia e possivelmente alcançado um melhor resultado e acima de tudo sustentável.

Essa é uma situação constante em nossa sociedade, na maioria das vezes estamos trabalhando em uma frequência que não é a nossa, devido à quantidade de informações que somos bombardeados o tempo todo. E como se quanto mais acumulássemos informações, mais teremos vantagem. Saber como lidar com a nossa fraqueza é uma grandeza, mas poucas pessoas aceitam isso. Saber como prospectar recursos é uma sabedoria, onde poucos exercitam com maestria.

A ideia aqui não é dizer que a visão feminina é melhor que a masculina, ou vice versa, mas sim despertar para uma nova forma de olhar o mundo. Cabe cada um saber como fazer a escolha da estratégia a ser usada de acordo com as circunstâncias que a vida nos oferece.

Esse é sem sombra de dúvida o grande legado que a Mestra Yim Ving Tsun nos deixou.